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BENS INVENTARIADOS

Patrimônio Imaterial

Festa: Santo Antônio.
Glaura. Ouro Preto/MG.

Distrito
Glaura.
Município / Estado
Ouro Preto / MG

Sub-categoria

Celebração.

Imagens

Cartografia

Vídeos

BINGO E FEIJOADA.

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”SANTANTONINHO”.

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Caracterização

A LOCALIDADE

PELAS ESTRADAS DA CASA BRANCA, HISTÓRIAS COTIDIANAS SE MESCLAM À ATMOSFERA DE GLAURA:

Para além dos conhecidos centros como Diamantina, Ouro Preto e Sabará, muitos foram os arraiais e lugarejos que surgiram no interior da Capitania de Minas Gerais durante os séculos XVII e XVIII (ÁVILA, 2003, p. 7). Apesar de a atividade mineradora ser o grande destaque da época, não se pode ignorar que as práticas agropecuárias desempenharam um papel de suporte imprescindível; isso porque se tornou necessário prover o contingente populacional deslocado para o interior dos sertões mineiros, cujas transformações demográficas ocorreram em curto período temporal. Nessa medida, as localidades circunscritas às áreas mineradoras também apresentaram uma visível dinamização, tendo nas incipientes famílias as marcas ativas do processo de crescimento do território mineiro (Cf. MORAES, 2001). Entretanto, houve períodos em que as crises produtivas dos alimentos atingiram altos índices, provocando instabilidades nos cotidianos dos moradores desses lugarejos; e é justamente nesse contexto de múltiplas alternâncias que despontou o pequeno arraial hoje denominado Glaura, o qual se situava bem próximo à importante Vila Rica.

O atual distrito é um dos mais antigos de Ouro Preto, na medida em que fora conhecido ponto de passagem dos inúmeros sertanistas, tropeiros e viajantes que atravessavam a região desde finais do século XVII. Localizado no caminho que ligava o Rio de Janeiro e à Bahia, próxima ao Rio das Velhas, a paragem era uma das principais referências da Estrada Real (Disponível em: www.estradareal.org.br, acesso em: 30 jun. 2006.). Ao percorrerem os caminhos mineiros, esses anônimos homens adquiriam e levavam informações por onde passavam, transformando-se em interlocutores de uma ampla rede que atravessava as Minas Gerais e as demais províncias. Aliadas às dificuldades de transporte e distâncias territoriais, as comunicações empreendidas pelos tropeiros movimentavam os diferentes lugares – os comércios locais podem ser citados como exemplos. Ou seja, por mais que a historiografia tradicional insista em apontar alguns nomes enquanto desbravadores dos sertões da Colônia, não se deve perder de vista que foram os sujeitos comuns, frutos dos processos de mestiçagens brasileiros, alguns dos principais atores da história colonial.

Contudo, muitas das vezes, são as próprias versões de alguns moradores que sustentam um tipo de saber mais alinhado às referências oficiais. O trabalho da pesquisadora Solange Fortes, baseado principalmente nas entrevistas com habitantes contemporâneos, sinaliza que o senhor Tomás Ferreira era proprietário de terras minerais na região, além de destacado comerciante de gado. Consta ainda que o referido homem foi um dos pioneiros da família Figueiredo Neves, esta última antiga detentora de áreas mineradoras às margens do Rio das Velhas (FORTES, 1996, p. 38). Tal ocupação caracterizou-se pelo considerável transcurso de tempo, uma vez que os relatos posteriores procuravam remontar essa versão ao longo das diferentes gerações de glaurenses. Outro indício sugestivo da antiguidade de Glaura pode ser percebido através do Primeiro Termo de Divisão entre as Comarcas de Minas Gerais: pertencente aos idos de 1714, a localidade já era considerada ponto separativo entre Vila Rica e São João Del Rey pelas autoridades administrativas da época (OURO PRETO, 2005, p. 63).

Um tradicional traço do distrito consiste na religiosidade local: vivenciado pelos indivíduos e grupos sociais através de variadas maneiras, o catolicismo popular assumiu feições que ultrapassam os formalismos eclesiásticos. Nesse contexto, a Matriz de Santo Antônio permaneceu enquanto símbolo referencial para os fiéis, sendo o imóvel religioso também passível de múltiplas apropriações. A primeira capela teria sido edificada antes mesmo do ano de 1719, conforme registro histórico publicado pela Revista do Arquivo Público Mineiro:

Este livro há de servir para nele se lançarem os assentos dos batizados, casados e mortos, nesta Matriz de Santo Antônio do Campo, onde chamam Capela de Baltazar de Godoy, e leva no fim o termo de encerramento por mim assinado como vigário da vara desta Vila Rica e seu distrito. Vila Rica, 2 de outubro de 1719, Lucas Ribeiro (Revista do Arquivo Público Mineiro, n XIII, p. 85).

Através do excerto transcrito, nota-se a homenagem ao bandeirante Baltazar de Godoy, cujo nome servia de referência àqueles que qualificavam a antiga ermida de Santo Antônio do Campo – aliás, primeira denominação de Glaura. Considerado outro importante pioneiro da localidade, a provável liderança de Baltazar nos trabalhos de erguimento da capela lhe rendeu reconhecimentos posteriores por parte da população.

Alguns estudos afirmam que houve uma outra pequena igreja no local da Matriz: concebida em grande parte de madeira nos idos de 1723, rapidamente foi substituída pelo atual templo sagrado (OURO PRETO, 2005, p. 63). A Matriz de Santo Antônio de Glaura teve suas obras iniciadas em torno do ano de 1751, situando-se em outro ponto do arraial; segundo os relatos orais, coube à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário a iniciativa da construção, tendo como respaldos os incentivos da comunidade. Quanto à data gravada na peanha da cruz do frontispício (1764), há duas hipóteses possíveis de interpretações: a mesma se refere à conclusão das obras ou apenas ao término do corpo do edifício. Muito possivelmente os trabalhos se arrastaram por longas décadas, fato este bastante comum nas edificações de grande envergadura. Ademais, o Governo Provincial destinou recursos à Matriz para reparos e manutenções gerais ao longo do século XIX. Apesar das mudanças sofridas desde os oitocentos, a igreja glaurense mantém características originais como os altares talhados a ouro e a base sólida de pedras trabalhadas; já os acervos eclesiásticos contendo livros de registros e documentos oficiais se encontram na Casa dos Contos de Ouro Preto.

Conforme ressalvado anteriormente, Santo Antônio do Campo fora a nomenclatura recebida pela localidade durante os primeiros momentos – isso porque a mesma era subordinada a Cachoeira do Campo. Na seqüência, a partir de 1727, o topônimo Casa Branca passou a ser referendado pelos moradores; a força da religiosidade estava tão presente que o nome Santo Antônio de Casa Branca integrou os trâmites oficiais cerca de vinte e cinco anos mais tarde (OURO PRETO, 2005, p. 63). Ainda segundo alguns entrevistados, havia o costume de se utilizar a denominação Santo Antônio das Garças Brancas: a justificativa para tal escolha ancorava-se nas aves da espécie que migravam para a região durante os verões (FIGUEIREDO, Maria das Mercês. Glaura, Ouro Preto, 18 dez. 2005. Entrevista concedida a João Paulo Lopes.). Em tempo, cumpre destacar que o arraial foi elevado à categoria de Freguesia pelo então bispo Dom Manoel da Cruz nos meados de 1749 (FORTES, 1996, p. 39). A grande mudança veio a ocorrer somente a partir do século XX, quando da publicação do decreto-lei nº 1058 que institucionalizou a nomenclatura Glaura em 1953; porém, a referência Casa Branca continua bastante usual entre os glaurenses.  

Existem duas explicações para a escolha do atual nome: a primeira delas ainda se faz presente na memória coletiva local, sendo repetida pelos moradores quando perguntados a respeito do motivo dessa denominação. Para muitos, Glaura era a esposa de um fazendeiro famoso da região, o conhecido Barão de Saramenha (FORTES, 1996, p. 40). Entretanto, outros registros sustentam que fora Francisca Lídia de Andrade a mulher do referido senhor, refutando a hipótese compartilhada há tempo na localidade (Disponível em: www.genealogia.neotopia.pt, acesso em 23 mai. 2006.). Além dessa polêmica, interessa delinear que a segunda versão se ancora no livro Glaura: poemas eróticos, do escritor mineiro Manuel Inácio da Silva Alvarenga. Esse literato nasceu em 1749, em Vila Rica, filho de um músico mulato. Freqüentou os estudos preparatórios no Rio de Janeiro e, mais tarde, mudou-se para Portugal, onde cursou Direito na Universidade de Coimbra. Em terras portuguesas conheceu e se tornou grande amigo do poeta árcade Basílio da Gama, estreitando amizade, também, com Alvarenga Peixoto – um dos desertores do episódio da Inconfidência Mineira (Cf. MACIEL, 2004).

Na concepção do crítico literário Luiz Carlos Maciel, o nome Glaura é um mistério que envolve uma magia lírica, a qual traz eco de Laura, musa de Petrarca; destacam-se, ainda, as correlações com aura, brisa, sopro, aragem e força espiritual. Por outro lado, a riqueza semântica de Glaura faz lembrar ouro e louro, esta última uma árvore dedicada a Apolo, protetor das artes. De acordo com o estudioso, a personagem do poeta Silva Alvarenga pode evocar Laura de Petrarca “... que serviu como fonte de várias alegorias, sobretudo no campo da espiritualidade, da linguagem e da sensualidade: aura-louro, aura-brisa, aura-aurora, aura-espírito vital ou aura-lamento” (MACIEL, 2004, p. 10). A dimensão da natureza encontra-se bastante presente no livro. Possivelmente, por evocar fontes, grutas, ninfas, cupidos, dentre outros elementos naturais e mitológicos - fragmentos estes constituidores do imaginário coletivo da localidade - o título da obra teria sido escolhido como inspiração para esse distrito ouro-pretano. Tal opção viria muito no sentido de homenagear também o árcade Silva Alvarenga, haja vista que o poeta nascera nas proximidades da localidade de Glaura. Nesse sentido, essa segunda hipótese para a nomenclatura do lugarejo pode ser compreendida enquanto um interessante trânsito entre o presente e o passado da região: ao mesmo tempo em que remonta as referências artísticas de um escritor local, o topônimo consegue suscitar as belezas naturais que ainda permanecem como traços distintivos desse local.

Adentrando nas especificidades do processo histórico de Casa Branca, importa sublinhar que a ocupação dos primeiros núcleos populacionais ocorreu no entorno da igreja de Santo Antônio. Tal espaço testemunhou as inúmeras atividades dos tropeiros nos séculos passados, sendo ponto de encontro entre as tropas que partiam e/ou chegavam ao lugarejo. O surto da atividade mineradora manteve-se apenas em algumas décadas dos setecentos, o qual se fez substituído pelas práticas agrícolas de subsistência. Estas últimas envolviam diversas famílias durante o fazer cotidiano da localidade, produzindo milho, feijão, arroz, verduras e legumes (OURO PRETO, 2005, p. 63). Através de ritmos cadenciados, que se alternaram entre o crescimento e a estagnação, pode-se afirmar que o pequeno comércio de hortifrutigranjeiros sustentou a economia local (FORTES, 1996, p. 40). Bastante favorecido pela sua posição estratégica, o distrito de Glaura se encontra permeado por diferentes vias de acesso, característica esta que remonta às ações dos anônimos desbravadores. De forma análoga, as festas religiosas consistem em expressões que se mantém vivas através das diferentes temporalidades: Santo Antônio, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Mercês remontam tradições e mudanças entre as vivências dos moradores de Casa Branca.

Contemporaneamente, o Coral Santa Cecília se destaca por zelar pelo gosto musical na região. Há também a importância do Espaço da Terra enquanto pólo de referência artístico-cultural de Glaura, na medida em que são desenvolvidos e expostos fragmentos dos artesanatos locais: tricô e bordado de peças de vestuário, trabalho com palha para confecção de bolsas, pintura artística em azulejos e fabrico dos doces caseiros são apenas alguns exemplos da potencialidade criativa dos glaurenses. Aliás, a população do distrito contabiliza próximos 1.300 habitantes (IBGE, Censo Demográfico 2000). Reclamações usuais como as faltas da rede de esgoto, das opções de lazer e da precaridade do transporte coletivo têm presenças no cenário atual. Empregados em sua maioria nas produções agropecuárias, bem como nas atividades artesanais e do comércio, os moradores ainda procuram novos postos pelos arredores da localidade. Uma possível alternativa se concentra no turismo local, o qual tende a priorizar as riquezas naturais da região, já que grande parte da arquitetura antiga encontra-se descaracterizada.

Os passeios turísticos pelo sítio natural acabam se transformando em um deleite para os visitantes, cujas incursões pelas trilhas podem ser feitas a pé, de moto ou bicicleta; algumas das principais atrações são Vale do Tropeiro, Soares, Ana de Sá, Rio das Velhas, Engenho D’Água, Maciel e Fazenda Barra Mansa, além de cachoeiras, como as de São Bartolomeu e Capanema. De maneira geral, objeta-se que a natureza tranqüila e convidativa faz lembrar os lugares freqüentados pela pastora de Silva Alvarenga – sejam os locus reais, imaginários ou uma mescla de ambos. O ar bucólico e pacífico que envolve o pequeno lugarejo de Glaura encontra ecos no lirismo e na musicalidade do poeta, sugerindo uma interessante troca de impressões: ao mesmo tempo em que as condições atuais parecem remontar o cenário do árcade, este último serve de inspiração para aqueles que venham a visitar a antiga Casa Branca.

 

O SANTO FESTEJADO

DISCURSOS PRÁTICOS E LONGAS PEREGRINAÇÕES DO ‘SANTO CASAMENTEIRO’:

Estudos biográficos indicam o ano de 1195 como provável data de nascimento de Santo Antônio, o qual teria nascido nas proximidades da cidade de Lisboa (CUNHA, 1993; ATTWATER, 1991). Tal contexto histórico remonta a uma relativa movimentação das atividades comerciais na Idade Média, cujas características denotavam para um ressurgimento dos antigos burgos – processo este que ganharia força séculos mais tarde com a emersão dos Estados Nacionais. E fora justamente nesse cenário de ascensão econômica que um simples frade se destacou pelas suas pregações itinerantes nas terras européias. Ao condenar os atributos das famílias abastadas, o eclesiástico preconizava um estilo de vida centrado na solidariedade e cooperação entre os homens.   

Para isso, o jovem Fernando logo ingressou na Ordem dos Franciscanos; a adoção do nome Antônio consistiu em uma homenagem do religioso a Santo Antão (CUNHA, 1993, p. 81). Tendo permanecido como cônego regular em Portugal até os 25 anos de idade, o eclesiástico estendeu seus conhecimentos para as regiões francesas e italianas (ATTWATER, 1991, p. 41). Nessa toada, o autor Jorge Campos Tavares chega a precisar o local onde o santo teria ministrado aulas, o antigo Convento de Santa Cruz (TAVARES, 1990, p. 22). Verídica ou não essa assertiva, há ainda a suposição de outros estudiosos que o popular clérigo trabalhou em Marrocos junto aos muçulmanos – conta-se, inclusive, que Santo Antônio sofreu grave moléstia durante as longas andanças (ATTWATER, 1991, p. 41).  

Após realizar voto de pobreza, o franciscano investiu nas divulgações de mensagens que questionavam valores sociais como corrupção, luxo e ostentação. De excelente retórica, o padroeiro de vários lugares do mundo conseguia sensibilizar intelectuais, pessoas humildes, jovens e crianças. Especula-se que alguns discursos tiveram trechos preservados pela Igreja Católica, porém não existe uma sistematização a respeito dos mesmos. À medida que doutrinava os valores cristãos pelas paragens que percorria, Santo Antônio rapidamente ganhou respeito perante a população da época (ATTWATER, 1991, p. 41). Muitos atribuem uma série de milagres a Antônio, condição esta que lhe conferiu a áurea de santidade; entretanto, mais uma vez, inexistem relatos que apontem para qualquer tipo de evidência.

A intensa vida dedicada à religião foi interrompida quando estava na cidade de Pádua, Itália – a referência Santo Antônio de Pádua advém, inclusive, dessa localidade em que falecera no ano de 1231. Poucos meses depois, a canonização representou o reconhecimento coletivo, cuja conquista se dera ainda em vida. Celebradas nos diferentes continentes, as comemorações em torno de sua figura se concentram no dia 13 de junho. A tradição oral entre os moradores dos distritos ouro-pretanos atesta duas características que lhe conferem grande popularidade: se por um lado, Santo Antônio é considerado o ‘santo casamenteiro’ pelas mulheres, para muitas famílias a figura santa abençoa a todos com a força positiva do ‘pãozinho de Santo Antônio’, não deixando que os alimentos faltem à mesa – simbolicamente, tais facetas (re)criam-se nos cotidianos dos moradores.

No que toca às especificidades da imagem glaurense, não se sabe a origem precisa da sua respectiva fatura. Veicula-se que a mesma remonta a meados do século XIX, quando as festas religiosas já haviam adquirido certa regularidade em Glaura. Atualmente, a força simbólica de Santo Antônio se expressa através de variadas formas; a devota Regina de Freitas, por exemplo, reiterou que no distrito não existe pobreza devido às graças alcançadas junto ao padroeiro (FIGUEIREDO, Regina de Fátima. Glaura, Ouro Preto, 10 jul. 2005. Entrevista concedida a Guilherme Rodrigues.). Ou seja, esse tipo de leitura corrobora para que a representatividade do bem móvel continue produzindo diferentes versões, cujos conteúdos oscilam entre um saber sagrado e o próprio contexto social de Glaura.

 

A FESTA

FESTEJOS DE LONGA DATA E MUITA DEVOÇÃO AO ‘SANTO CASAMENTEIRO’:

Os antigos nomes de Glaura já atestariam, por si próprios, a importância destinada a Santo Antônio ao longo do tempo: Santo Antônio do Campo, Santo Antônio das Garças Brancas, Santo Antônio de Casa Branca predominaram até meados do século XX, quando o atual topônimo passou a vigorar na localidade (OURO PRETO, 2005, p. 63). Entretanto, a referência ao santo permaneceu na igreja matriz, estendendo as possibilidades de novas valorizações por parte dos moradores. E é justamente a partir desse imóvel sagrado que se pode aventar a respeito do início das festas em homenagem à figura santa; erguida ainda na primeira metade do século XVIII, a edificação funcionou como espécie de núcleo aglutinador dos folguedos religiosos. Nessa medida, torna-se plausível supor que, concomitantemente aos usos cotidianos realizados pelos anônimos fiéis, as comemorações festivas começaram também a vigorar nos espaços do templo religioso. 

Interessa ressaltar que um documento do ano de 1723 já indicava a existência da Confraria e Irmandade do Senhor Santo Antônio na então Freguesia do Campo da Casa Branca (Casa Paroquial de Glaura. Acervo da Paróquia de Santo Antônio: Compromisso da Confraria e Irmandade do Senhor Santo Antônio [Manuscrito, datado do ano de 1723].) Ou seja, revela-se outro forte indício de que os festejos eram contemporâneos a essa organização, na medida em que a mesma prezava por atividades dinâmicas, responsáveis por envolverem seus respectivos participantes. Além disso, cumpre destacar a faceta ‘popular’ em meios aos preâmbulos glaurenses; conforme discorreu Sérgio Buarque de Holanda na clássica obra Raízes do Brasil, as manifestações do catolicismo ganharam outras feições na chamada América Portuguesa, tendo enquanto exemplos a “exterioridade” e a “superficialidade”; esta última, nas palavras do intelectual: “... fez-se notar pela enfática predominância dos ritos externos, pelo colorido e pela pompa das práticas exteriores...” (HOLANDA, 1956, p. 217).      

Articulados às características aventadas no parágrafo anterior, os preparativos para as festas de Santo Antônio apresentam-se munidos de marcantes adornos. A começar pela ornamentação da igreja, cujos elementos das flores frescas conferem um toque especial ao vistoso interior do imóvel. Além disso, as ruas próximas ao locus sagrado ganham várias bandeirolas coloridas; confeccionadas pelos próprios habitantes de Glaura, tais apetrechos concedem uma atmosfera especial às procissões e aos outros eventos que transcorrem nos espaços públicos. Em poucas palavras, percebem-se trocas interessantes entre os universos ‘sagrado’ e ‘profano’, na medida em que a decoração não se restringe aos símbolos sacros, havendo uma azeitada mistura entre estes últimos e elementos como as flores e as bandeirolas multicores.

Entretanto, nem somente de conciliações que se constituíram as festas de Santo Antônio nas terras glaurenses. Ainda com relação aos quesitos organizativos, existiram mudanças há pouco mais de oito anos: se antes as preparações ficavam sob as responsabilidades dos leigos, atualmente o Conselho Comunitário Pastoral (CCP) tenta assumir o controle dessas diretrizes. Após longos anos à frente da programação básica, a Irmandade de Santo Antônio de Casa Branca perdeu espaço para o poder paroquial, haja vista que os festeiros e mordomos deixaram os papéis de protagonistas dos eventos. Com a criação do CCP a partir da iniciativa da Diocese de Mariana, despontaram alguns atritos entre os adeptos das práticas já costumeiras e aqueles que estavam dispostos a aceitar a nova rotina das festividades – ou seja, captação de recursos, programações dos dias envolvidos, comissão organizadora, dentre outros. A comissão do Conselho Pastoral é eleita bienalmente, tendo como desafio a tentativa de estabelecer maior rigor segregativo entre as faces ‘religiosas’ e ‘profanas’ das festas. Tal pretensão surgiu em vários outros momentos ao longo desses séculos, não conseguindo êxito justamente pela natureza híbrida dos festejos de Santo Antônio.    

O segundo final de semana de julho consiste na data escolhida pelos organizadores. Abertas durante a sexta-feira, as festividades contam com as apresentações de grupos musicais. O público se anima a partir dos movimentos nos espaços de Glaura, prestigiando cantores da região; interessante ressalvar que não obstante às ações do CCP, os aspectos ‘não-religiosos’ predominam nessa fase preliminar. Somente no sábado à noite que ocorrem os primeiros ritos católicos: após a missa em homenagem ao padroeiro, realiza-se uma concorrida procissão pelas ruas do distrito. O bem simbólico venerado é a bandeira de Santo Antônio, a qual tem como ponto referencial uma residência da localidade – em tempo, a escolha anual da casa torna-se atribuição do Conselho Pastoral. O cortejo sai do imóvel escolhido sob forte espírito devocional: idosos, crianças e adultos com velas às mãos se misturam indistintamente, tendo enquanto destaque as iluminações das chamas de fogo. O trajeto em direção à matriz também se faz entoado pelas músicas da banda local, cujos sons entrecortam as falas das orações dos fiéis; estouros de foguetes ajudam compor o ambiente entusiasmado.            

Quando da chegada ao templo sagrado, ocorre a benção e o hasteamento da bandeira do santo: os sinos da matriz anunciam o momento esperado, contando ainda com a companhia da banda de música. A flâmula de Maria Santíssima também ocupa local de destaque no mastro previamente montado. Nem mesmo o típico frio da região nessa época do ano afasta os fiéis, os quais continuam louvando Santo Antônio de múltiplas maneiras – seja cantando, orando individualmente ou simplesmente contemplando todos os ritos da festa. Na seqüência, grupos musicais assumem um papel central nas comemorações, na medida em que tocam repertórios que atravessam a madrugada; e é justamente a partir dessas marcas ‘profanas’ que as barraquinhas de comidas e bebidas conotam para momentos de partilha coletiva. Ou seja, em meio ao ambiente descontraído, os participantes aproveitam, cada um a seu modo, os atrativos disponibilizados pelos barraqueiros: jogos, cerveja, comércio e churrasquinhos são algumas das possibilidades oferecidas aos anônimos freqüentadores.

Já no domingo as comemorações iniciam-se pela parte da manhã, tendo como destaque a realização do bingo premiado. Tal evento ocorre nas ruas da localidade, as quais se transformam em um salão de jogos ao ar livre; as pessoas sentam-se às mesas improvisadas, junto ao meio-fio, nas portas das casas ou permanecem de pé. É grande a expectativa pelos anúncios dos ganhadores, cujas premiações são arrecadas previamente na comunidade. Os lucros auferidos nessa atividade acabam convertidos para as obras da Paróquia, conforme atesta por diversas vezes o locutor do bingo – o que não deixa de ser um incentivo para que todos participem. Sem maiores formalidades, a feijoada é servida concomitantemente à brincadeira; bastante apreciada, a refeição congrega ainda mais os participantes no seio do convívio social. A faceta ‘religiosa’ retorna no período da tarde, quando uma missa ganha espaço na programação festiva. Novamente a procissão recebe as atenções dos fiéis: agora com a imagem do padroeiro colocado no andor e enfeitado devidamente. Na chegada, Santo Antônio fica postado em frente ao altar, onde os devotos tocam, pedem benção e proteção ao conhecido ‘casamenteiro’. Ao adentrar no templo sagrado, a imagem recebe uma notável salva de palmas, sinal de respeito e admiração pela figura santa.                     

A título de complementação, cumpre discorrer a respeito de alguns aspectos das festividades em Glaura. Durante as missas tornaram-se comuns as participações de crianças que representam o papel de Santo Antônio: túnica marrom, amarrada com uma corda na cintura, além das sandálias compõem os trajes clássicos dos franciscanos. Junto às figuras de anjos alvos, a versão mirim do padroeiro desperta simpatia entre os fiéis, os quais dirigem seus olhares para a entrada anunciada do mesmo. Outra ocorrência quando da celebração dominical consiste na distribuição do famoso e disputado pão de Santo Antônio; antes encomendado pelos próprios festeiros, atualmente esse símbolo da boa e diária alimentação tornou-se responsabilidade do CCP. Os muitos gritos de ‘viva’ reforçam o espírito de fé por parte dos participantes; estes últimos, sejam residentes da localidade, visitantes ou antigos moradores conseguem (re)criar a tradicional festa centenária, transformando e dotando de diferentes sentidos aquelas antigas. Por mais que existam conflitos, há um grande reforço das redes sociais da comunidade, favorecendo as construções de identidades entre os participantes, as festas e o próprio distrito glaurense.

Notas

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Proteção legal

Não há proteção legal para a Festa de Santo Antônio enquanto patrimônio imaterial. A proteção existente é indireta, recaindo sobre um dos elementos componentes da celebração: a Igreja de Santo Antônio das Garças Brancas, tombada pelo IPHAN, através do Processo nº 465-T, inscrição nº 470, Livro Belas Artes, fls. 86, de 24 de outubro de 1962.   

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Referências

BIBLIOGRÁFICAS E DOCUMENTAIS:

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CONTI, Dom Sevilio. O Santo do dia; Petrópolis:Vozes, 1984.

FILHO, Orlando Ramos & RAMOS, Adriano Reis. Iconografia: Santos das Ordens Religiosas. Belo Horizonte: IEPHA, 1980.

FORTES, Solange Sabino Palazzi. Ouro Preto conta Ouro Preto: tradições da Terra do Ouro. Ouro Preto/MG: 1996.

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SANTIAGO, Camila Fernanda Guimarães. A Vila em Ricas Festas: celebrações promovidas pela Câmara de Vila Rica (1711-1744). Belo Horizonte: FACE-FUMEC, C/Arte, 2003.

DOCUMENTOS. (vários). Microfilmes – rolos 001, 002 – Acervo da Paróquia de Santo Antônio de Casa Branca: Casa dos Contos, Ouro Preto/MG.

ELETRÔNICAS:

www.ecclesia.pt.

www.glaura.hpg.com.br.

www.religiaocatolica.com.br.

ORAIS:

Regina de Fátima Figueiredo. Entrevista, jul/2005.

Miguel Arcancho Oliveira. Entrevista, jul/2005.

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Ficha técnica

RESPONSÁVEL PELAS INFORMAÇÕES: PREFEITURA MUNICIPAL DE OURO PRETO/MG.

Levantamento (Jul/2005): Guga Barros (Comunicação) / Guilherme Rodrigues (Sociologia) / Hilário Figueiredo (História) / João Paulo Lopes (História) / João Valdir Alves de Souza (Sociologia) / Patrícia Pereira (Arquitetura e Urbanismo).

Elaboração (Ago/2005): Guga Barros (Comunicação) / Guilherme Rodrigues (Sociologia) / Hilário Figueiredo (História) / João Paulo Lopes (História) / João Valdir Alves de Souza (Sociologia) / Patrícia Pereira (Arquitetura e Urbanismo).

Revisão (Jan/2006): Memória Arquitetura.

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